Alcolumbre no alvo: PF vê perseguição estratégica e prazos suspeitos nas mãos de Mendonça

Relatórios da Polícia Federal enviados a Moraes apontam variação suspeita nos critérios usados por André Mendonça contra políticos — e classificam Davi Alcolumbre como "provável alvo estratégico".

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Ministro André Mendonça. Foto: Luiz Roberto/TSE

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A crise dentro do Supremo Tribunal Federal ganhou um novo capítulo pesado. Relatórios de inteligência da Polícia Federal, enviados ao ministro Alexandre de Moraes, apontam que o ministro André Mendonça agiu de forma desigual em ações contra políticos ligadas ao caso Master — usando régua mais dura para uns e mais branda para outros. E tem nome específico na mira: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), aparece como “provável alvo estratégico”.

Alcolumbre na mira

Um dos relatórios da PF é direto ao apontar o motivo por trás do suposto interesse de Mendonça em Alcolumbre: poder político.

“Avalia-se que Davi Alcolumbre constitui provável alvo estratégico, considerada sua força política, o favoritismo para manter-se na presidência do Senado Federal e o consequente controle da pauta daquela Casa, notadamente quanto ao processamento de pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.”

Polícia Federal, em relatório

Não é a primeira vez que os dois nomes se cruzam em lados opostos. Segundo a PF, Alcolumbre foi um dos principais obstáculos à indicação de Mendonça ao STF, lá em 2021, ainda no governo Jair Bolsonaro.

Dois pesos, duas medidas: Weverton Rocha x Ciro Nogueira

O relatório também compara como Mendonça tratou dois senadores em processos parecidos — com resultado bem diferente. No caso do senador Weverton Rocha (PDT-MA), a representação chegou a apontar liderança de organização criminosa, mas, segundo a PF, “sem apontar ato de ofício, sem valor rastreado até ele e sem um único diálogo em que figure como interlocutor”.

Já o caso do senador Ciro Nogueira (PP-PI) tinha, na visão da Polícia, um conjunto de provas muito mais robusto — incluindo a chamada “emenda Master”, que propunha elevar o teto de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. De acordo com a PF, o texto foi escrito por pessoas ligadas ao Banco Master e passou pelas mãos do banqueiro Daniel Vorcaro antes de chegar a Ciro e ser protocolado no Senado. Em conversa revelada pelo relatório, Vorcaro comemorou a apresentação do texto:

“Foi a versão. Que o andre me mandou. Final. Saiu exatamente como mandei.”

Daniel Vorcaro

Mesmo com esse cenário mais grave contra Ciro, foi o caso de Weverton — com menos provas — que recebeu tratamento mais duro. A PF resume assim:

“No feito em que o acervo era comparativamente mais frágil, e a medida pretendida a mais gravosa, o Relator reconheceu ‘fortes indícios’ e limitou-se a indeferir a segregação. No feito em que o acervo já continha ato de ofício documentado e a medida pretendida era a menos invasiva do ordenamento, condicionou a própria análise da justa causa à produção prévia de prova da contrapartida financeira.”

Polícia Federal, em relatório

Prazos que não batem

O relatório da PF também colocou lado a lado o tempo que Mendonça levou para decidir sobre medidas envolvendo autoridades diferentes — e a diferença chama atenção:

  • Jaques Wagner (PT-BA) — mandado de busca e apreensão: 9 dias
  • Ciro Nogueira (PP-PI) — mandado de busca e apreensão: 29 dias
  • Cláudio Castro (governador do RJ) — mandado de busca e apreensão: 75 dias
  • Cláudio Castro — mandado indeferido, com parecer favorável da PGR: 46 dias
  • Instituto de Previdência de Maceió — medidas cautelares: mais de 53 dias

A PF não afirma que Mendonça tenha agido de propósito para acelerar ou travar decisões, mas é categórica sobre o padrão encontrado:

“A dispersão é expressiva e sugere correlação entre tempo de apreciação e perfil do investigado.”

Polícia Federal, em relatório

O que vem agora

Esses relatórios foram citados por Moraes no pedido de investigação que ele mesmo enviou contra Mendonça ao presidente do STF, Edson Fachin, nesta quinta-feira (3). Para Moraes, há “fortes indícios” de improbidade administrativa, abuso de autoridade, crime de responsabilidade e favorecimento a grupos políticos na condução dos casos Master e INSS por parte de Mendonça.

A resposta não demorou: na terça-feira (1º), Mendonça já havia retirado o sigilo de um relatório da PF — produzido por determinação dele — que expôs trocas de mensagens entre Moraes e o próprio Daniel Vorcaro, sugerindo que o plenário do STF avaliasse o material.

Agora, Fachin deu um prazo de 5 dias úteis para que Mendonça, Moraes, a Procuradoria-Geral da República e a própria Polícia Federal prestem esclarecimentos sobre toda a movimentação do caso.

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