Cultivar curiosidade amplia o mapa da própria vida, mostra a ciência

Ter vários interesses não é sinônimo de dispersão. Pesquisas mostram que ganhadores do Prêmio Nobel têm até 22 vezes mais chances de ter hobbies artísticos.

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Pessoa curiosa olhando entre as páginas de um livro. Foto: Ana Claudia Estrada

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Existe uma metáfora antiga usada para descrever quem tem muitos interesses: a do pato que anda, nada e voa, mas não faz nada direito. A ideia por trás dela é que se dedicar a várias coisas ao mesmo tempo impede o aprofundamento em qualquer uma delas. Mas, segundo o jornalista David Epstein, autor do livro “Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas”, ter interesses variados não é obstáculo para se aprofundar em uma área específica.

Generalistas que se destacaram

Em seu livro, Epstein cita nomes como Vincent van Gogh, Charles Darwin e Duke Ellington como exemplos de pessoas que cultivaram interesses variados ao longo da vida e, ainda assim, alcançaram reconhecimento internacional em suas áreas de destaque.

O que a pesquisa sobre o Prêmio Nobel mostra

Robert Root-Bernstein, professor de fisiologia da Universidade de Michigan, documentou que ganhadores do Prêmio Nobel têm pelo menos 22 vezes mais chances de atuar, dançar, fazer mágica ou se dedicar a outras atividades artísticas amadoras, quando comparados a cientistas sem reconhecimento equivalente.

Dispersão não é ter muitos interesses

Chrystina Barros, especialista em felicidade pela Universidade de Berkeley, faz uma distinção importante: a dispersão não é definida pelo número de atividades que alguém tem, mas pela dificuldade de manter atenção e concluir projetos. Segundo ela, uma pessoa pode ter um único interesse e ainda assim ser dispersa, assim como pode ter vários interesses e ser extremamente organizada. Para Barros, esse conceito costuma se basear numa falsa lógica dualista, que exige sacrificar tudo para ser bom em uma única coisa, quando nem tudo precisa virar uma especialidade formal ou produzir resultados concretos.

Abrir espaço para mais de um caminho

Abandonar um hobby para experimentar outro não significa fracasso, segundo Barros. A ideia de que a continuidade é prova de seriedade também é questionada por ela: é possível ser organizado e ter múltiplos interesses, sem que isso comprometa as escolhas principais da vida de alguém.

Olhar para o todo

O conhecimento não fica organizado dentro de fronteiras rígidas entre disciplinas. Uma referência musical, por exemplo, pode informar o pensamento sobre liderança, mostrando a importância da escuta, do ritmo e da sintonia entre as pessoas. Essa conexão também tem relação direta com a criatividade, já que criar frequentemente envolve aproximar ideias que, à primeira vista, não pareciam ter nenhuma relação entre si. Quanto maior o repertório de uma pessoa, mais formas ela tem de ler e compreender o mundo ao seu redor.

Riqueza psicológica: um mapa maior da própria vida

Os pesquisadores Shigehiro Oishi e Erin Westgate desenvolveram o conceito de riqueza psicológica, que propõe uma visão de vida boa centrada em experiências profundas, aprendizados e abertura a novas perspectivas, em vez de uma busca constante apenas por felicidade. Essa riqueza envolve construir um mapa maior da própria vida e, principalmente, enxergar mais caminhos possíveis dentro dele. A curiosidade cria pequenos futuros possíveis e mantém aberta a possibilidade de sermos constantemente transformados pelo que ainda não conhecemos.

Não é necessário experimentar absolutamente tudo para viver essa riqueza. Basta permanecer curioso: enquanto existirem perguntas, também existirão novas possibilidades de movimento na vida de qualquer pessoa.

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