Apple troca de comando: veja quanto vão ganhar Tim Cook e John Ternus, e o desafio bilionário que o novo CEO tem pela frente

John Ternus assumiu a Apple no lugar de Tim Cook com pacotes de remuneração milionários, mas agora precisa provar que a empresa consegue vencer a corrida da inteligência artificial contra rivais como OpenAI, Google e Anthropic.

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John Ternus, novo CEO da Apple. Foto: Reprodução

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Desde 1º de setembro, a Apple vive uma nova era de comando. John Ternus assumiu o cargo de CEO da gigante da tecnologia, tornando-se o terceiro homem a ocupar a posição desde 1997, no lugar de Tim Cook, que deixou a liderança depois de 15 anos à frente de uma das maiores empresas do mundo.

Ternus foi anunciado como sucessor de Cook em abril, quando o ex-CEO revelou que deixaria o comando. Na época, então com 50 anos e no cargo de vice-presidente sênior de engenharia de hardware, Ternus passou a trabalhar em estreita colaboração com Cook na preparação para a nova função. Na segunda-feira (31), véspera da transição, o ex-CEO se despediu em carta aos funcionários, agradecendo pela colaboração, destacando uma gestão de sucesso e endossando publicamente seu sucessor.

Quanto cada um vai ganhar

Em comunicado enviado à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, a Apple revelou quanto cada um dos executivos vai receber. Ternus terá remuneração anual de US$ 3 milhões (cerca de R$ 15 milhões). Já em 2027, ele terá direito a uma concessão de valores de US$ 55 milhões (R$ 280,8 milhões), sendo 75% em ações restritas atreladas ao desempenho da Apple frente às empresas do S&P 500, e os outros 25% em ações baseadas em tempo, que serão adquiridas semestralmente.

Tim Cook segue na empresa, agora como presidente executivo do conselho de administração. Ele receberá salário anual de US$ 2 milhões (cerca de R$ 10 milhões) a partir de 26 de setembro, um valor US$ 1 milhão menor do que recebia como CEO. Em 2027, Cook também terá direito a uma remuneração baseada em ações com valor-alvo de US$ 45 milhões (R$ 229,8 milhões), nesse caso menos atrelada ao desempenho da companhia. Os executivos da Apple também costumam receber bônus em dinheiro, mas a empresa não divulgou esses valores.

Uma herança pesada

Assim como Cook teve grande responsabilidade ao suceder o icônico Steve Jobs, Ternus também carrega um fardo considerável. O preço das ações da Apple subiu mais de 2 mil% desde que Cook assumiu o comando, em 2011, período em que a empresa vendeu mais de 3,1 bilhões de iPhones.

A capacidade de Ternus de manter a Apple no topo, porém, vai depender de como ele reformular a estratégia de inteligência artificial da companhia. A Apple tem enfrentado dificuldades para adotar a tecnologia com sucesso até agora, e críticos apontam que ela ficou muito atrás de seus rivais no setor.

Estreia às vésperas do iPhone dobrável

O novo CEO assume a empresa às vésperas do lançamento do iPhone 18 e, possivelmente, do anúncio do primeiro celular dobrável da Apple. Ternus fará sua estreia pública no evento de lançamentos de outono da companhia, marcado para 9 de setembro e batizado de “Surpresa e brilho”. A expectativa é que ele anuncie o primeiro iPhone dobrável da Apple, além de uma nova versão da Siri com inteligência artificial.

Para o analista Francisco Jeronimo, vice-presidente de Dados e Análises do grupo de pesquisa de tecnologia IDC, os próximos anúncios da Apple já vinham sendo planejados durante o período de Cook no comando, e o direcionamento que Ternus quer dar à empresa só deve ficar evidente em 2027.

É claro que o 9 de setembro será um marco muito importante para a empresa em relação a dispositivos dobráveis e inovação. Mas não acho que tenhamos visto nada que indique que a Apple esteja se comportando de maneira diferente ou adotando uma estratégia diferente pelo fato de Tim Cook não estar mais no cargo, pelo menos não ainda.

Francisco Jeronimo, vice-presidente de Dados e Análises da IDC

O gigantesco desafio da inteligência artificial

Observadores vão prestar atenção, no dia 9, à extensão com que Ternus vai dedicar seu discurso à inteligência artificial. Já era inegável em abril, quando ele foi anunciado, que o boom da IA seria crucial durante sua gestão à frente da Apple. Nos cinco meses seguintes, ficou ainda mais evidente que a revolução da inteligência artificial veio para ficar. “Está ficando claro que a IA não é uma moda passageira, não é algo que vai desaparecer nos próximos dois ou três anos. É algo que vai ditar o futuro da maioria das empresas de tecnologia e, de fato, de todas as empresas”, diz Jeronimo.

Ele acredita que a inteligência artificial pode se tornar “a tecnologia mais importante” para a Apple, porque tanto pode ajudá-la a manter sua posição de destaque quanto criar uma série de desafios assustadores. Para o especialista, o maior deles é que a Apple não controla a infraestrutura de IA da mesma forma que controla o projeto de hardware e software de seus principais produtos. “Talvez seja isso que John Ternus fará de diferente de Tim Cook, porque, no momento, mesmo que a Apple desenvolva sua própria tecnologia de IA, a realidade é que ela ainda depende de terceiros”, pontua.

Risco de perder relevância

A dependência da Apple em relação a outras empresas no campo da inteligência artificial levou a companhia a um território desconhecido. Ela fechou um acordo com a OpenAI em 2024 para integrar o ChatGPT ao iPhone, parceria que gerou uma disputa acirrada entre as duas empresas: a Apple chegou a processar a OpenAI neste ano, acusando-a de roubar segredos comerciais. Também neste ano, a companhia anunciou um acordo com o Google para que os modelos de IA do Gemini sejam usados tanto em seus próprios sistemas quanto na nova versão da Siri.

O risco para a Apple é se tornar menos relevante em um mundo onde empresas como a OpenAI e a Anthropic lideram em termos de tecnologia, reconhecimento, serviços e, potencialmente, hardware.

Francisco Jeronimo, vice-presidente de Dados e Análises da IDC

Por décadas, o sucesso da Apple foi construído sobre seus produtos físicos, do iPad ao iPhone. “Se aparelhos da OpenAI se tornarem disponíveis, isso poderá ser muito, muito arriscado para a Apple. Eles poderiam revolucionar completamente a experiência e a forma como interagimos com a tecnologia. E se a Apple não estiver na vanguarda dessa inovação, isso representa um grande risco”, avalia Jeronimo.

Uma mistura de Jobs e Cook?

O cargo de CEO da Apple é icônico em grande parte por causa da gestão do fundador da empresa, Steve Jobs. A experiência de Ternus como engenheiro, tendo trabalhado nos principais produtos da Apple e em inovações como o Apple Watch e os AirPods, é o motivo pelo qual se espera que ele lidere o desenvolvimento dos novos produtos de inteligência artificial da empresa. Ele também teve papel fundamental na defesa da mudança da Apple para o design de seus próprios chips, em vez de depender de fornecedores externos como a Intel, o mesmo tipo de independência que a companhia gostaria de alcançar também em relação à IA.

Jeronimo acredita que a Apple ainda tem grandes vantagens, dado o enorme volume de usuários que possui e a cultura de décadas de domínio em inovação tecnológica. Para ele, se a Apple conseguir dominar a inteligência artificial sob a liderança de Ternus, isso pode levar a um enorme sucesso. “O que veremos nos próximos anos vai dizer se a Apple está no caminho certo ou se está realmente enfrentando dificuldades”, avalia.

Para Ternus, a primeira tarefa será simplesmente se encaixar de forma suave e convincente em um papel que tanto Jobs quanto Cook, cada um a seu modo, tornaram seu. O novo CEO assume a empresa em um momento de estabilidade, com resultados financeiros fortes, mas com o desafio de continuar avançando em inteligência artificial e hardware, além de lidar com a pressão dos Estados Unidos pela retirada da fabricação da China.

Steve Jobs era o guru da inovação e da disrupção, e Tim Cook era o guru da execução. Acho que John Ternus pode ser uma combinação dos dois.

Francisco Jeronimo, vice-presidente de Dados e Análises da IDC

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